sábado, 7 de fevereiro de 2009

Moderdora


Queria esquecer da insensatez, por isso decidiu sumir por uns tempos. Colou algumas peças de roupas dentro da mochila (1 calça, 2 blusas, 3 peças intimas e 1 par de chinelos), apertou a sapatilha e caminhou em direção a rodoviária da cidade. Imaginou no caminho poder encontrar alguém querido que lhe desviasse do trajeto planejado e seguiu. Enquanto cortava o centro do Rio admirava as vitrines e pensava que olhava para dentro de seus desejos. Chegou a suspirar namorando a moda.Era uma tarde quente de um dia de verão. As pessoas passavam pela rua como formigas que correm atras do sustento. As formigas eram muitas e transitavam num desespero, de um lado para o outro, de forma que nela causava náuseas. Todas tão preocupadas com seus afazeres que não pareciam poder refletir e observar nada além dos obstáculos a frente da próxima passada de pernas. O caminhar de todos era ligeiro.Só Alice continuava ali estática tomada pela intensidade de seu desejo. Ela não era velha e, é claro, cultivava a juventude vaidosa. Através do vidro viu seus sapatos, que estava acompanhado da promoção escrita em vermelho “sale”. Ela queria vesti-lo e assim foi fazer.Adentrou o espaço que julgava ser familiar, sentia-o como se fosse todo dela. Rodeada pelas pessoas que disfarçadamente a observavam tomou-se pela acolhida. Pegou um, dois, três objetos do mostruário. A música ao fundo embalava sua sensação, ela era a goma cheia de açúcar, estava repleta e preenchia-se cada vez mais com os olhares que lhe eram direcionados. Ali ela era o centro do mundo, não o grão dentro da bolha.A estranheza veio sim, e veio de fora para dentro, acompanhada da nota fiscal. Ato meticulosamente planejado e necessário a fim de não interromper o fluxo da aparente afeição. Todas as relações resumiam um só movimento “casch”. Queria ser notada, porém todo aquele movimento a fazia fulgás.Antes de puxar a bolsa em que havia à pouco depositado pouco do que possuía vistoriou-se de baixo à cima e pensou em acelerar o passo. Lembrava-se do trajeto planejado. Tinha que ir para a rodoviária. Percorrer o caminho mudo o mais rápido que pudesse, sem perder-se nas futilezas modernas. O ar sutil que aparentava à esmero denunciava sua falta de jeito com aquelas que buscavam cativá-la.Desorientou-se quando pensou que o seu movimento a permitia pintar seu próprio nome no céu. No seu subconsciente sabatinava a autarquia doente e à media que punia-se pelo devaneio, caminhava, caminhava mais rápido. Era preciso cada vez mais rápido se distanciar da insensatez. Era preciso seguir. Era preciso engolir o nó da garganta, a amargura no peito, as lembranças e tudo mais que a enojava.Os arredores estavam preenchidos pelos rostos desfigurados pela fome. Eram homens mulheres e crianças que usavam trapos e catavam latas pelos cantos preenchidos de lixo enquanto cantavam. Um deles observou uma guimba de cigarro, ascendeu-a com fósforo que lhe restava e tragou a fumaça.A cena embora fosse comum, impactou-a. Era uma boca vazia de dentes e uma barriga preenchida de fumaça. Sentiu-se humilhada pela sua condição social, pelo seu modelito blasé e pelo diploma de bacharel. Olhou para poça e não foi capaz de se observar. Era tola, branca, magra, alta e cultivava um estereótipo feliz pra fugir da dor que sentia com o constante destaque da cena. Cena que se repetia e que sempre a golpeava no intimo.Não conseguiu mais fingir a felicidade, estava tomada pela sensação da tragada. Seus pertences não a conformavam em nada, nada além da imagem observada. Seus pertences eram um rótulo e seu estilo um manual. O que tava do lado de dentro era imperceptível, calado, desgostoso e sem esperança. Não despretenso das mazelas observadas, da dor disfarçada com a tragada.

Tarot


Meu amor!
Hoje sonhei com você e você estava tão lindo! Sorria pra mim enquanto acariciava minha face. Estávamos sentados sobre a grama e a paisagem que observávamos do alto era mais que admirável. Seu beijo tinha gosto de manga e o vento levitava nossos cabelos. Acompanhávamos-nos e nada mais era preciso para preencher aquele tarde.
Foi uma pena acordar e não percebê-lo ao meu lado. Queria que soubesse o quanto te admiro e te desejo inteiro.
Sinto vontade de fazer coisas simples em sua companhia ler, assistir uma peça, caminhar, ouvir música, beber vinho, trocar confidencias ao pé do ouvido e gozar. Sinto vontade de ficar inteira em sua companhia, sem medos.
Ah! Se eu pudesse e se tivesse coragem... eu me entregava, demonstrava todo o meu desejo contido. Apertava as suas mãos e as envolvia sob o meu corpo. Convidava-o para passear na avenida e seguia à pé.
Lembrar o que não vivi... como eu queria conseguir esquecer esse desejo não correspondido. Pior do que uma idéia fixa! Seria simples se eu pudesse modificar a sensação, alterar o que sinto tal como troco a posição das cartas do jogo de tarot quando não aceito a revelação. Onde você está? 29, 13 e 01 são essas as cartas. Viu! Você sempre no futuro. Já não posso mais esperá-lo.
Minha ansiedade perdeu os modos. Tô te esperando na cama.

Vitrine ou O que me faz chorar


Observo uma mulher que caminha aparentando estar meio perdida. O que será que se passa na sua mente? Será uma mente insana ou será ela adaptada a vida para o trabalho?
Como seguir frente a uma história descontinua e marcada por lacunas sócio-existenciais? Será ela só? Ou será que dentro do inconsciente a solidão não é sua parceira?
Durante a manhã a observei como revistasse a agonia que pisoteia toda a sensação de fragilidade. Seu percurso ziguezagueante revelava a inconstante emoção de satisfação.
Lembrei que já a havia visto outras vezes. Ela era uma peça comum da Alcindo Guanabara, Centro do Rio. Lembrei de uma tarde de um dia comercial em que eu refrescada pelo banho esperava a condução. Eu estava ali com meus textos lidos, com a matéria decorada na cabeça, com o valor da passagem na mão quando ela abraçou um homem que falava ao celular. A atitude dele de susto a asperou mas ela não se conteve abraçou outro que se sentiu inojado e envergonhado de negar afeto aquela que tão voluntariamente lhe dirigia o gesto.
Ele buscou se desculpar para as demais pessoas que estavam sentadas ao ponto. Justificava-se: - “Ela está suja! Tadinha! Está carente, quer atenção! Como posso?! Ainda vou trabalhar hoje (...) e se ela tiver uma doença de pele.” Enquanto isso ela saiu chorando vilipendiada. Aparentando ter sido incompreendida enxugava suas lágrimas com a barra do casaco.
E eu por alguns segundos julguei-me superior. A observadora portadora de recursos suficientes para comprar uma vida menos medíocre, ajustada à racionalidade construída sob base real, objetiva. Os minutos passaram e logo voltei para a reflexão empática. Queria afagá-la, ouvi-la. Mas, eu também estava presa a uma grade de horário, da Escola de Serviço Social. (Metáfora? Não. Fato real) Eu me desencontrei e prossegui. Minha ação não era por um, por ela, nem por mim. Eu queria desmontar toda a estrutura social e ainda hoje busco como.
Ainda não entendi o que move as pessoas da casa para o trabalho, do trabalho para família, da família para labuta e dessa para o amanhã? Como não se percebem construtoras da ação? Não sei. Juro que me desencontro toda vez que busco racionalmente entender o que motiva tantas pessoas para vida mesquinha, pouco aprazível. Minha psique corrói-me em dor toda vez que me vejo inerte ao movimento de busca pela superação dessa forma de viver pequena e doentia.
Não me faz sentido trabalhar para comer, pensar para oprimir. Se a emancipação – meu sonho irrealizável porque imperceptível às possibilidades para sua realização – não é possível, prefiro à morte (reconheço o fatalismo subliminar). Prefiro sumir, planar até as brumas do infinito e esquecer toda a tentativa. Porém, não há lugar possível pra onde ir. Não há encontro possível. Meu sonho não se constrói em solitude, nem somente à dois.
Nanã abra-me seus braços. Não posso mais. Não consigo mais encontrar alegria diante de tanta ausência. Já não consigo disfarçar toda a dor de ver, sentir e entender que a opressão se retro-alimenta. A sensação contenta é inexeqüível ante aos rostos corroídos pela fome, carcomidos pelo crack, diante de pessoas nitidamente destruídas pela miséria que lhe impossibilitam outras saídas se não a venda de seus próprios sonhos.
A moça ziguezagueante talvez tenha se encontrado num espaço imaginário, mais livre porque não mercantil. Talvez numa “Parságada” ou numa “Cocanha” interior ela seja mais feliz. Num mundo imaginativo talvez se sinta mais apta e menos adaptável. Quem sabe dentro de si encontrou a paz de não ter que seguir tantas determinações sociais, nem tantos condicionantes para ser aceita.
Leitor! Quanto custa sua vida? Tem sonhos, quanto custam? E o tempo necessário para a realização do ideal, lhe é caro? Como jogas pela janela a possibilidade de outra via?
Sou marcada pela dor. Assumo! Sou marcada por histórias de vida que revelam estragos da ausência do apoio social, do mínimo necessário para suprir a sobrevida.
Perdi-me dentro daquela mulher ziguezagueante que em seu olhar puxava a piedade como uma forma de me convencer a lhe ceder esmolas. Ela era uma pedinte e eu não era menos patética. Muito menos as minhas mazelas estavam menos expostas. Eu era ela na voz passiva.

Não me leia

Nunca começo pelo título, desta vez resolvi fazer diferente. A carta que puxo do baralho me apresenta caminhos, seu número é o 22 e possui um valete de ouros. Minha imaginação trai a tentativa de descrever meus sentimentos, por isso resolvi recorrer as cartas. Mesmo não creditando veracidade desejei que elas me trouxessem revelações, que aguçasse a imaginação. Balela!
Utilizo-me de fatos corriqueiros e comuns para tentar compor a fábula ainda que sobressaltada. Penso no que vivi nos gestos e lugares que observei. Nas falas, sim, nas falas não minhas. Na disposição dos objetos, no comportamento alheio ao meu.
Realizo de forma mecânica o mesmo gesto não abrupto, depois, fico avaliando a capacidade franzina que possuo de provocar sentimentos e ações não previsíveis nos outros. Utilizo do pouco que consigo captar para montar o cenário, criar os personagens da próxima história. Porém isso não é o suficiente pra compor os parágrafos.
È tudo tão habitual, tão despretenso que se torna cenotáfio.
Sim, lembrei-me. Há algo que vivi. Posso puxar da memória aquele... qual era seu nome. Ah, isso não importa. Ele tem vivacidade e caminha nu. Provocou-me insônia. Devo utilizá-lo, só é prejudicial aquilo que não faço. Descrevendo o seu comportamento posso criar um conto. Se eu possuísse algo mais que as palavras, talvez conseguisse um romance, quiçá uma poesia. Mas não consigo descrever o que não vivo, fico com a ficção abstrata.
Não sei se tenho um fundo, ou uma alma perene. Não me choco com o que vejo, nem nas palavras que raras vezes são transmitidas a mim encontro refrão. Só sinto o eco da esperança atirada sob mim quando quem provocou o efeito já se foi. Garimpo nas histórias alheias medos, sonhos e atitudes corriqueiras, palavras para linha do meu raciocínio perdido. Elas não preenchem nada além do copo d’água.
Ele é uma lembrança, devo dissolvê-lo. Sou o espectador posso dilatar o imaginado e não quero me perder em argumentações sem propósito. Não quero me caracterizar enquanto infundado, nem por isso me expor. Sou o vampiro vagante que durante a madrugada espreita pela tela tudo o que é alheio a mim.