
Sozinha sentava-se à mesa, sob estado de espera de algo mais do que o cardápio e constatações vãs. Queria, mesmo dentro da sua infinitude azulada, da cor da pele aboborada, tatear algo que lhe apresentasse um caminho a seguir. Algo que lhe demonstrasse sentidos. Almejava encontrar dentro da salada uma bússola, um isqueiro, uma mão, uma porta ou qualquer objeto que lhe possibilitasse achar saídas para todas as suas perguntas.
Como compreender o que motiva à humanidade a ação? Fez um gesto para o garçom. Perguntas com múltiplas respostas embolavam sua consciência atordoada. Não sabia mais o que queria pra si. Deveria pedir sugestões ao metrie? Não havia tabuletas na entrada.
Anos dedicados a um sonho. O sonho, que se perdeu no caminho, realizava um objetivo sem propósito. O que fazer com tantas opções que se concentram numa única alternativa? Não queria sobreviver meio à dor de se vender. Muito menos receber, no fim do mês, o suficiente para continuar aprisionada. Não queria visualizar, na pequenez das atitudes diárias, a ausência da possibilidade de realização da própria mesquinhez. O que solicitar como prato principal, peixe ou ovos?
Enquanto pensava percebia que ela era a substância liquefeita que sugada adentrava o canudo. Como se torna mesquinha a vida quando se constata que o trabalho em nada dignifica quem o executa que nada possibilita a quem dele vive. O garçom vinha em sua direção. Trabalho, tão desejado e odiado! Seus frutos servem a poucos. Trabalhar para ver através da íris, a lente da frustração, a subserviência, a impossibilidade da auto-afirmação humana.
A refeição estava posta sem direta proporção aos sentimentos, a indignação. Num “continue” progressivo quanto mais perguntas chegavam mais dúvidas surgiam. O susto de se perceber ser humano corria a passos largos. Mastigava a carne suculenta, contudo precisava dar início a uma dieta. Enquanto constatava os próprios limites as perguntas vinham emaranhadas, umas as outras, sem orientação ou coerência: a nova moral, onde estava? O horizonte utópico, qual era? Onde encontrar a superação das inúmeras ausências? Vegetarianismo (?!) seria essa uma saída?
Não percebia caminhos a serem percorridos, muito menos lugares com reservas sob a claridade da luz de velas. Com o pedido da conta tentou puxar um assunto qualquer com o garçom. Concluía que as refeições precisavam de algo mais do que paladar. O cardápio, de algo mais do que apresentação dos pratos do dia. Toda a forma de desejo passa pela busca de superação da superficialidade.

