
Queria esquecer da insensatez, por isso decidiu sumir por uns tempos. Colou algumas peças de roupas dentro da mochila (1 calça, 2 blusas, 3 peças intimas e 1 par de chinelos), apertou a sapatilha e caminhou em direção a rodoviária da cidade. Imaginou no caminho poder encontrar alguém querido que lhe desviasse do trajeto planejado e seguiu. Enquanto cortava o centro do Rio admirava as vitrines e pensava que olhava para dentro de seus desejos. Chegou a suspirar namorando a moda.Era uma tarde quente de um dia de verão. As pessoas passavam pela rua como formigas que correm atras do sustento. As formigas eram muitas e transitavam num desespero, de um lado para o outro, de forma que nela causava náuseas. Todas tão preocupadas com seus afazeres que não pareciam poder refletir e observar nada além dos obstáculos a frente da próxima passada de pernas. O caminhar de todos era ligeiro.Só Alice continuava ali estática tomada pela intensidade de seu desejo. Ela não era velha e, é claro, cultivava a juventude vaidosa. Através do vidro viu seus sapatos, que estava acompanhado da promoção escrita em vermelho “sale”. Ela queria vesti-lo e assim foi fazer.Adentrou o espaço que julgava ser familiar, sentia-o como se fosse todo dela. Rodeada pelas pessoas que disfarçadamente a observavam tomou-se pela acolhida. Pegou um, dois, três objetos do mostruário. A música ao fundo embalava sua sensação, ela era a goma cheia de açúcar, estava repleta e preenchia-se cada vez mais com os olhares que lhe eram direcionados. Ali ela era o centro do mundo, não o grão dentro da bolha.A estranheza veio sim, e veio de fora para dentro, acompanhada da nota fiscal. Ato meticulosamente planejado e necessário a fim de não interromper o fluxo da aparente afeição. Todas as relações resumiam um só movimento “casch”. Queria ser notada, porém todo aquele movimento a fazia fulgás.Antes de puxar a bolsa em que havia à pouco depositado pouco do que possuía vistoriou-se de baixo à cima e pensou em acelerar o passo. Lembrava-se do trajeto planejado. Tinha que ir para a rodoviária. Percorrer o caminho mudo o mais rápido que pudesse, sem perder-se nas futilezas modernas. O ar sutil que aparentava à esmero denunciava sua falta de jeito com aquelas que buscavam cativá-la.Desorientou-se quando pensou que o seu movimento a permitia pintar seu próprio nome no céu. No seu subconsciente sabatinava a autarquia doente e à media que punia-se pelo devaneio, caminhava, caminhava mais rápido. Era preciso cada vez mais rápido se distanciar da insensatez. Era preciso seguir. Era preciso engolir o nó da garganta, a amargura no peito, as lembranças e tudo mais que a enojava.Os arredores estavam preenchidos pelos rostos desfigurados pela fome. Eram homens mulheres e crianças que usavam trapos e catavam latas pelos cantos preenchidos de lixo enquanto cantavam. Um deles observou uma guimba de cigarro, ascendeu-a com fósforo que lhe restava e tragou a fumaça.A cena embora fosse comum, impactou-a. Era uma boca vazia de dentes e uma barriga preenchida de fumaça. Sentiu-se humilhada pela sua condição social, pelo seu modelito blasé e pelo diploma de bacharel. Olhou para poça e não foi capaz de se observar. Era tola, branca, magra, alta e cultivava um estereótipo feliz pra fugir da dor que sentia com o constante destaque da cena. Cena que se repetia e que sempre a golpeava no intimo.Não conseguiu mais fingir a felicidade, estava tomada pela sensação da tragada. Seus pertences não a conformavam em nada, nada além da imagem observada. Seus pertences eram um rótulo e seu estilo um manual. O que tava do lado de dentro era imperceptível, calado, desgostoso e sem esperança. Não despretenso das mazelas observadas, da dor disfarçada com a tragada.

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