quinta-feira, 2 de abril de 2009

O embrulho de Alice






Alice estava num estado de semiconsciência. Estava perdida dentro de seus sentimentos, por isso havia buscado a criação material como expressão catártica. Enquanto movia as mãos os pensamentos libertavam-se. Lembrou da entrega dos planos, das manhãs tranquilas com cheiro de café fresco, da cama desarrumada, da porta fechada sem a despedida, enfim das cenas comuns de um cotidiano não solitário.
Seus olhos, vazios de alegria, concentravam-se na feitura daquela tentativa de arte. Sua forma não aleatória resgatava na memória o empenho dedicado a realização de um plano elaborado por dois e não construído por um. O objeto transfigurava o sonho de transformar uma data qualquer numa data especial para os dois. Porém tudo estava rompido.
Alice, entre um pensamento e o outro que se entrecruzavam, rompendo uma continuidade lógica descortinava a farsa de ainda se perceber acompanhada. No gerúndio percebia a manifestação do desejo de alicerçar, em novas práticas, outros sonhos. O objeto só carregava em si o desejo de uma ação planejada no pretérito, por isso deveria ser esquecido.

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