sábado, 28 de fevereiro de 2009

Triturando cérebros


Seus pensamentos ronronavam na sua cabeça, tal como o motorzinho que os gatos parecem carregar dentro de si. Queria externar toda a sensação de desprazer. Queria retirar de dentro de si o desconforto. Se fosse possível, segurava pela ponta da linha da razão e puxava... puxava com firmeza a desconfiança na vida. Se o incomodo do lado de dentro fosse um verme era assim que faria: abria a boca, o segurava pela ponta e puxava até acabar o desconforto.
Mas, os malditos nódulos não poderiam ser retirados com tanta facilidade e ainda sem definição travestiam-se num mal incontornável. Eram ao mesmo tempo a certeza da ausência do apoio emocional e a desesperança na perspectiva de uma vida mais amena. Para ela, era difícil crer, aqueles que ela portava seriam nódulos do bem.
Nesse momento somente eles a possuíam e toda a sua malignetude já a dominava. No momento de dor, nas profundezas da sensação que corrói, não existem amigos, não existe ninguém que transforme o desespero em algum motivo à sorrisos, pelo contrário.
Lembrou-se da ação, muito sem graça, que um alguém fizera ao abordar seu medo como base para a construção de uma tentativa de literatura. Somente um ser-monstro poderia ser tão desrespeitoso, poderia ser capaz de tratar a possibilidade da certeza da morte como algo fútil e vazio de sentimentos.
Refletiu mais um pouco. Recordou das atitudes de outros monstrinhos egoístas que certamente nunca haviam pensado na possibilidade da morte lenta e torturante. Lembrou-se de como sentiu a solidão no dia da ultima visita ao médico. Da festa de carnaval que já começava e da intensidade do desejo da amiga em ter sua companhia feliz. Mas, quem seria capaz de forçar-lhe a felicidade? E, quem seria capaz de entender seu desespero diante daqueles extensos pedidos de exames?! Achou-se tola por confiar nos sentimentos humanos que existem para além da aparência difusa, superficial. Decidiu não mais desabafar seus medos com ninguém. Fechou-se definitivamente ao envolvimento e sem hesitar passou a tratar as pessoas como corpos despossuídos de sentimentos. Assim, partes de corpo (boca, dentes, pernas, bunda ...) formavam pessoas mais ou menos aptas a produção da sensação do gozo mecânico.
Aproveitou a data festiva para contornar o mal estar e prosseguir meio aos foliões pondo em prática sua elucubração não teórica. De dia, de bloco em bloco, disfarçava para si mesma, à base de cerveja, cigarros e corpos, o peso da duvida. De noite, desabava em lágrimas o medo do leito hospitalar e da queda dos cabelos. O medo era algo inexplicável que concentrava-se numa mistura de dor, ausência afetiva e perspectivas de futuro.
Morte em vão, vida em vão! Internamente a bigorna movia-se moldando os metais que carregava. Tudo isso dentro da sua cabeça

Um comentário:

  1. Sem saber o que fazer , sem saber como consolar , acabamos falando besteiras e só aumentamos o sofrimento de quem amamos ...

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